COLETÂNEA DE PESQUISA NA FORMAÇÃO DA PSICOLOGIA NO CARIRI CEARENSE - VOLUME 4



COLETÂNEA DE PESQUISA NA FORMAÇÃO DA PSICOLOGIA NO CARIRI CEARENSE - VOLUME 4
978-65-6155-199-1

2026
182
10
1
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Adriana de Alencar Gomes Pinheiro
Pinheiro, Adriana de Alencar Gomes
João Leandro Neto
Neto, João Leandro
Orlando Júnior Viana Macêdo
Macêdo, Orlando Júnior Viana
Este quarto volume reúne dez trabalhos de conclusão de curso produzidos por estudantes concluintes de Psicologia do Centro Universitário Paraíso, a UniFAP, ao lado de seus orientadores. São textos escritos no Cariri cearense, e algo desse chão comparece neles, nas perguntas que os alunos escolheram fazer e nos problemas que decidiram investigar. Reunidos, dão uma amostra dos interesses que atravessam a formação em psicologia neste momento e neste lugar. O território onde se vive costuma deixar suas marcas naquilo que se pensa. Um sujeito não se compreende bem apartado das relações que o sustentam, da classe a que pertence, das desigualdades que atravessam sua história. Boa parte dos trabalhos aqui reunidos guarda essa preocupação, cada um a seu modo, e é dessa atenção às condições concretas da vida que retiram parte de sua consistência. Um dos capítulos volta-se para a juventude periférica e a atuação da psicologia no CREAS. Acompanha jovens cujas trajetórias são marcadas pela violência e pela falta de amparo, e discute como o trabalho psicológico, nesse contexto, se aproxima de um exercício ético e político tanto quanto técnico. Há ali um cuidado em não tratar o sofrimento como se ele não tivesse raízes sociais, e em enxergar nesses jovens algo além da vulnerabilidade. A atenção ao presente reaparece no estudo sobre a experiência do tempo entre universitários. A vida se acelerou, e com ela encurtou-se aquilo que costumava pedir demora, como a dúvida ou o amadurecimento de uma escolha. Cobrado a produzir sem pausa, o estudante por vezes adoece nesse ritmo. O capítulo procura ler com atenção de que maneira a lógica do desempenho se infiltra na subjetividade e converte o tempo numa fonte de mal-estar. Quando o tempo aperta, o corpo responde à sua maneira. A investigação sobre psicossomática retoma uma intuição que acompanha a psicanálise desde cedo, segundo a qual aquilo que não encontra palavra pode retornar pela via do corpo. O corpo aparece então como uma superfície em que o inconsciente se inscreve, lugar onde o que foi calado insiste em se fazer sentir. Trata-se menos de metáfora e mais de uma compreensão clínica com implicações reais no modo de escutar. O vínculo mais antigo, aquele que nos forma antes mesmo da linguagem, é o tema do capítulo sobre abandono emocional na primeira infância. A falta de respostas afetivas nos primeiros anos costuma deixar marcas que a vida adulta repete nos relacionamentos. A negligência emocional tem uma face difícil de perceber, pois, por não deixar hematomas, costuma passar despercebida, tomada como um jeito comum de criar filhos. Nomeá-la, como faz este trabalho, já é uma forma de atenção. Dois capítulos chamam atenção pela escolha do objeto. Um deles lê a personagem Nico Robin, de One Piece, a partir da teoria freudiana e lacaniana. Outro examina a transformação do protagonista de Blue Lock no terreno do egoísmo competitivo. Quem estranhar a presença de mangás numa obra de psicologia talvez esqueça que a psicanálise se constituiu em conversa próxima com a literatura e o teatro. A ficção costuma funcionar como um espaço em que o humano se deixa observar, e ler personagens com apoio teórico é um caminho possível para pensar aquilo que nos move. Há também um estudo que parte da obra Sessão de Terapia para pensar a transferência e a contratransferência, movimentos afetivos que sustentam o funcionamento da clínica. A relação entre quem escuta e quem fala nunca é neutra, e acompanhá-la de perto é chegar ao que há de mais próprio no trabalho analítico. Situar esses conceitos dentro de uma narrativa conhecida ajuda o leitor a percebê-los operando numa cena. A clínica com crianças autistas ocupa um lugar sensível nesta reunião. O capítulo enfrenta as divergências de um campo em que diferentes modelos disputam o modo de compreender o autismo e o cuidado devido a essas crianças. A escuta da singularidade de cada uma, diante de tentativas de padronizar a conduta, é a linha que atravessa o texto. A discussão vem a propósito num tempo em que o diagnóstico com frequência se antecipa ao encontro com a criança. A cultura digital aparece em dois trabalhos que se aproximam. Um examina como as tecnologias de comunicação estimulam autodiagnósticos apressados, convertendo o sofrimento em rótulo pronto para consumo. Outro investiga os efeitos de entregar à inteligência artificial certas decisões sobre seleção de pessoas, quando trajetórias passam a depender de critérios algorítmicos. Ambos partilham uma inquietação a respeito do que se perde quando a tela se interpõe entre os sujeitos, mediando aquilo que antes pedia presença. Percorridos os dez capítulos, nota-se uma variedade que talvez seja o traço mais próprio da obra. As psicologias que aqui comparecem não se harmonizam por completo, apoiam-se em teorias distintas e se voltam para objetos que vão do consultório às redes, da primeira infância à ficção japonesa. Essa diferença não empobrece o conjunto. Ela apenas registra que a psicologia, no plural, admite muitos caminhos, e que cada aluno seguiu o seu. Cabe uma palavra sobre o momento em que a coletânea vem a público. Ela integra a abertura do ano jubilar da Psicologia da UniFAP, que em 2027 completará dez anos. Uma década de formação diz respeito a muitos jovens que encontraram, sem se afastar de suas raízes, a possibilidade de estudar e de se formar como psicólogos. A reunião destes trabalhos acompanha esse marco e dá a ver parte do que se produziu ao longo do percurso. Há, na variedade dos temas reunidos, um traço do próprio Cariri, capaz de abrigar interesses e olhares que pouco se parecem entre si. Estas páginas ficam como parte do que ali se estuda e se pensa, num curso que segue se construindo. Juazeiro do Norte, 25 de agosto de 2026 - Abertura do Ano Jubilar dos Dez Anos do Curso de Psicologia da UniFAP.
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